Deus ou a química às vezes dão uma trégua dentro do cérebro e do espírito. E aí, pode acontecer de você, depois de um dia ou de um ano desastroso, felizmente descobrir que sempre existe a possibilidade de um 15 de julho libertador em que todas as seguranças que você tinha aos 14 anos de repente reaparecem. E você pode finalmente entender que as suas seguranças sempre estarão dentro de você. Presentes, reais e intensas.
Numa manhã qualquer de inverno e de sol, você pode se lembrar de ter sonhado com viagens de navio, e de ter sido feliz no mar, como pode ser no continente. De uma maneira simples e grandiosa.
E aí, o mundo pode parecer caber entre seus dedos e depender apenas de um movimento seu.
Quando você sorri e, com calma, observa esse mundo que você tem nas mãos enquanto ele gira, você se lembra de que você é também uma criança capaz de encontrar surpresas, alegrias, aventuras, e enxergar que todas as coisas verdadeiras são bonitas. Porque todas as coisas verdadeiras te olham dentro da alma e enxergam a verdade que existe em você. E tudo que é verdadeiro canta e dança, dentro da alma, além dos precipícios, acima dos abismos, em sintonia com a eternidade e a perfeição.
A vida dança, perfeitamente dinâmica, plena de verdade e de amor.
E o amor, feliz, encontrado, dentro de cada pessoa, dentro de cada palavra, dentro de cada gesto, o amor, em cada memória, em cada signo, o amor, invencível, imbatível, imensurável, ri de qualquer medo.
A paixão invade a vida, o amor invade os sentidos. Tudo é música, tudo dança, e tudo ri. Tudo é prazer e alegria. Tudo é parte do seu amor, da sua força, da sua inteligência. De você.
Gostaria de esclarecer que tem um espaço enorme, parece, aqui. Na minha cabeça. Mora uma fada. Mora também uma fera. E uma louca. Mora uma velha entediada. E uma menina desastrada. Uma atriz tímida. E uma bailarina meio sem jeito.
Na minha cabeça, cabem uma gata, uma macaca, uma lontra, uma perereca e uma lagarta. Cabe uma flor difícil.
Tem na minha cabeça uma mulher da França, uma da Suíça, uma de Portugal e uma do Brasil.
Na minha cabeça, tem um monte de idéias. Medos. Memórias. Sonhos. Pesadelos. Tem palavras e tem imagens, desenhos, movimentos, cenas, filmes, livros. Invenções. Às vezes, parece muito lotada, parece muito pesada, parece muito fora do corpo, parece muito independente, parece muito quadrada, parece muito muitas coisas. Às vezes, parece só que vai explodir.
Na minha cabeça, tem um monte de controvérsias a respeito de comidas salgadas, banhos de mar, trilhas pra cachoeiras, melhores amigos, melhores namorados, política e carnaval.
E ainda assim, parece incrível, mas o capacete da moto é mesmo um tipo de tamanho P.
Veio você voando de barco, atravessando Américas, pousando sem querer repousar, chegando sem querer demorar, entre uma viagem e outra, pirata, com bolsos cheios de garrafas de rum. Atracou imponente na minha ilha, sem diário de bordo, sem coordenadas, sem plano de viagem, sem plano nenhum. Orgulhosamente acostumado a maremoto, vendaval, temporal, furacão, todo tipo de tectonismo e vulcanismo. Um monte de medalhas brilhando no peito. Fazendo pouco caso do medinho das meninas.
Eu agarrada a livros e cadernos, com necessidade de terra firme, pensando em leis e em plantar uns tomates. Eu querendo botar os pés na grama e andar descalça. Você achando o mundo e a cidade uma aventura sem começo e sem fim. Dançando e fazendo farra, cantando alto e fazendo barulho. Eu de olhos vendados, trancada com os monstros, alheia à festa, analisando minhas chances. Estúpida.
De nada adiantou não ter saído da cama. De nada adiantou gritar, fazer escândalo, pedir ajuda, chorar às três da manhã e esperar que um herói aparecesse pra me salvar. Fui posta pra andar pela prancha na ponta da espada. E finalmente feita de comida pros tubarões.
Perdi a noite, a cabeça, o humor, a calma, perdi a aula, a vontade de rir, perdi a vontade. O coração, a garganta, o estômago querendo briga comigo. Querendo me derrubar. Como se eu já não estivesse suficientemente derrubada.
Tudo culpa sua, cabelo estranho.
Essa mania de contar ainda vai me fazer parecer egocêntrica
Eu tenho uma mania meio maluca de contar. E aí estava aqui contando mais ou menos sem nenhum objetivo quantas vezes aparecem algumas palavras nessa primeira página do blog. (Até antes desse post, claro). O resultado:
Daí inventei de concluir aqui rapidamente – e super livremente - que: danço mais que salto, falo menos que danço, olho mais do que falo, me importo demais com o dia, gosto muito mais da verdade, faço de conta que sinto menos do que penso, não gosto de pensar em saudade. Sou um pouquinho tímida pra falar de tristeza, um pouquinho menos pra falar de felicidade e menos um pouquinho pra falar de amor. Sobremesa vem na frente e por cima de qualquer outro tipo de refeição. Gosto mais de dormir que de acordar. Choro bastante, mas ainda consigo rir mais... Falo muito dos outros. E muito além de exageradamente muito sobre mim mesma.
Eu choro a dor de ter sido deixada. E a constatação de que me foi permitido, simplesmente, me afastar.
Lamento por não saber mais tudo o que sabia. Lamento porque o tempo me deixou vazios, silêncios e distâncias.
Choro por não ser chamada. Por não ser mais o que fui antes. Porque, sendo a sombra de mim, não me é mais possível ser vista. E onde não estiver, isso não será notado.
Choro porque menos uma pessoa é. E, porque existe esse não ser, também eu não sou.
Choro porque tropecei, distraída, sobre meu castelo.
Porque derrubada, misturada à areia do que quis ter construído, não era mais eu, nem era mais castelo.
Choro pelo que desejei que fosse. Pelo que não chegou a ser. Porque não se resolveu. Porque não se conseguiu ficar. Ou ficar bem.
Por um Bergman não visto, por um teatro perdido, por um telefonema não dado, por uma partida não disputada, uma vitória não celebrada, por uma Copa do Mundo no Brasil. Por um vestido meu que seria abraçado dentro de um restaurante em um dia feliz.
Eu sempre vou pensar que teria pedido minha sobremesa preferida.
Surgiu outro dia uma conversa sobre ter filhos e uma amiga minha comentou que eu tinha um jeito maternal, e que parecia mesmo que eu ia ser uma boa mãe: cuidadosa, atenta, carinhosa. Eu tomei como elogio, como sempre fazia quando alguém dizia isso (incluindo testes de revistas femininas); particularmente satisfeita comigo mesma por ver que alguém de fora também reconhecia em mim uma coisa que me parecia clara. Uma coisa da qual eu me orgulhava, como a gente se orgulha de ter algum talento especial.
Mas aí, não sei. Foi meio estranho, mas alguma coisa mudou. Eu vi nesse mesmo dia, mais tarde, quando fui pra cama e tentei dormir - processo que costuma levar horas. Tive a sensação de que a idéia já não me parecia mais tão atraente. Não me parecia mais, na verdade, uma idéia tão repleta de significado. O que foi que de repente me tirou de uma linha de pensamento que durava meses e meses, e meses, não sei. Claro que eu não estava tecnicamente programando, planejando, meticulosamente, nem nada, nem teria como. Mas estava sonhando, de certa maneira. Como uma doce expectativa. Um sonho mais ou menos distante e bom, que sempre me trazia de volta pra felicidade quando tudo parecia vazio.
E agora não me vejo mais embarcada na felicidade do sonho. A sensação simplesmente sumiu. Veio o pensamento e em vez de dias ensolarados no parque, risadas e porta-retratos cheios de closes de um Bebê Johnson, eu só pensei nas cãibras, nas infecções urinárias, nas noites sem dormir e em todos os detalhes da parte ruim do grande prêmio. E aí, o prêmio pareceu pequenininho.
O que era o objeto do meu desejo me pareceu um objeto comum, sem nada de extraordinário. E eu me senti longe de querer fazer qualquer coisa com o meu corpo ou com o meu tempo que parecesse sacrificante ou generoso. E longe de querer me desfazer de um monte de vontades que não combinam com ter que ser responsável por alguém.
Desapareceu a menina casadoira. Ficou essa menina aqui, indiferente, desligada de ambições familiares. Desligada daquilo que vivem fazendo a gente acreditar que é importante. Desligada de imaginar coisas afetivas pro futuro. Sem grandes ambições. Olhando pro vazio. Distraída.
Dois pequenos peixes beliscando a peixa grande, gorda e grávida. A peixa boiava, a barriga redonda pra cima, na água filtrada. Ela boiava, a despeito das plantinhas que a gente arrumou pro aquário. A despeito das pedrinhas e conchinhas todas naturais que a gente foi coletando por aí, pra dar pra eles uma casa mais ou menos parecida com uma casa de verdade. Aquela peixona boiava a despeito da gente ter resgatado ela de uma poça que secava com o sol no campus da faculdade e trazido ela pro aquariozinho bem-cuidado.
A morte é tão banal, se você for pensar. Não importa se você está na poça d’água ou no aquário do apartamento. Não importa se você vai ter filhinhos ou não, se você tem um pai ou uma mãe ou vários amigos ou nenhum amigo. Nem importa se você tomou café da manhã. É como nascer, comer, dormir. É mais uma coisa dentre as coisas. Mais uma coisa pra se fazer na vida. A diferença é que a gente resolveu inventar deuses, medos, explicações e significados diferentes e saiu enfiando idéias dentro da idéia da morte. Mas a morte, de verdade, ela só acontece, existe, e é simples. Simples como parar de comer a ração e parar de nadar em círculos dentro de um aquário. Simples como abrir espaço. A morte é só isso: boiar com a barriga pra cima.
4 por 4 A Deborah colocou ali, bem ali na minha frente, a cinco cadeiras enfileiradas de distância, o espetáculo. A moça muita branca de cabelos muitos vermelhos, o japonês, a moça da trança de princesa, e todos eles. Lindos e fortes e apaixonantes.
E eles dançaram pros meus olhos verem. Subiram nas paredes dos cantos e pularam pulos de gatos, vestidos pra festa, cheios de atitude e energia. E eu amando, querendo ser gato também, querendo usar o vestido de festa também, toda energizada.
Levaram as esquinas pra fora da cena e trouxeram, e passaram pela cena toda, da esquerda pra direita, ao longo do ato, a mesa. A super-mesa em que todo mundo subia e que eu queria colocar bem no meio da minha casa. A super-mesa dos pés que iam deslizando de um lado pra outro, por cima dela, pra cima e pra baixo, brincando de coisas que passam, de coisas que caem e que levantam, de coisas que mudam. De gente interagindo. De relacionamentos sendo feitos e desfeitos. A mesa do agora. Meus olhos vidrados na mesa passearam pelo palco. Saiu a mesa e ficaram minhas idéias agitadas.
Depois, todos de cor de rosa, laranja, vermelho, amarelo, azul e verde, brincaram de amor e de paixão, de humanidade, de busca, de ideais, brincaram de ingenuidade e de desejo. E eu sorri, espelhada na música do príncipe encantado, sorri divertida, vendo que a Deborah também sabe que a gente parece um monte de doces coloridos querendo ser desejados, amados e devorados.
Daí veio a coreógrafa - que inventou de tocar no piano uma sonata de Mozart! E resolveu colocar pra acompanhar a música as meninas-bailarinas misturando dança contemporânea com balé clássico. As meninas modernosas com pique de levadas, investidas nas velhas sapatilhas boudoir de um rosa-pálido que me atrai toda, toda vez.
E o final. O final simplesmente me tirou o fôlego! O chão ficou cheio de vasos de porcelana. Os bailarinos se meteram em todos aqueles caminhos de labirinto e fizeram as coisas mais incríveis! A concentração extrema a que devia se prestar cada um deles, a perfeição exata e milimétrica da posição de cada um dos vasos e de cada um dos passos, e as próprias porcelanas, cada uma diferente da outra: tudo remetia a uma idéia de oriente. E daí vinham as minhas idéias de que a gente não deveria temer tanto os riscos. Eles vão estar sempre presentes, nos mais diversos lugares, não importa a curva ou linha reta que a gente tome. E de que quando você acha que já sabe que uma coisa está ali, no segundo seguinte ela pode ter mudado de lugar. De que os problemas e as dificuldades fazem parte do cenário, e fazem dele algo menos óbvio: algo maior e mais desafiador. Idéias de que em tudo existem possibilidades. De que em tudo existe beleza. De que a gente nasceu pra aprender, pra fazer o melhor, pra amar, saltar, arriscar, dançar. Mesmo que no meio da chuva, mesmo que o momento não pareça ideal. Dançar, mesmo que à beira de abismos.
Independência I Eu: cabelos ao vento, mãos abanando, circulando pela cidade, vendo filmes incríveis, sendo paquerada pelo cara de terno e gravata e amando...
Eu, cheiro de fruta, fresca, fácil, leve, linda, conversando, sorrindo, distribuindo simpatia...
Desencanada, desacanhada, desafetada, caindo de boca e de amores na sobremesa italiana absolutamente divina que o restaurante criou pensando em mim...
Eu, irrepreensível, idiossincrática, inexoravelmente poética, doce, rica, interessante, interessada, criativa, curiosa, corajosa, apaixonada, idealista, entusiasta...
Eu, eu e minhas pernas, e minha boca, e minha força, eu e minha inteligência, eu e minha alegria, eu e minha cinturinha.
Eu e esse meu jeito de bailarina, esse meu jeito de gata, esse meu jeito de princesa.
Yogue, soprano, atriz, fotógrafa, escritora, desenhista, metida a inventar moda.
Maternal, protetora, dedicada, generosa, amiga, adorável.
Indecomposta, indeterminada, indestrutível.
Deliciosamente independente.
05/03/2010 01:24 I love airplane noise No banco do ônibus atrás de mim, e não era o 107, duas pessoas conversando em absoluto espanhol. O meu ouvido cheio da minha universalidade não deu conta de saber se da América ou da Europa. Mas o ouvido universal teve certeza de que não era o espanhol de segunda língua. Eram de outro país, tinham outros cheiros, acreditavam em outras influências. O ritmo acelerado, sensual e quase bruto da conversa me tirou do ônibus e me remeteu a filmes, fotos, viagens, mergulhos, frutas, música, arquitetura, arte, aventura. De Barcelona, das Ramblas, da Barceloneta, de Lisboa, de Perpignan, de Montpellier, do Ticino inteiro, de uma ponte de dois mil anos, de uma cidade envolvida em uma fortaleza, de cafés da manhã à beira de lagos.
Eu me senti presa por ter obrigações a cumprir e delas fazer parte essa idéia de todos os dias ter que estar presente nos mesmos lugares, ver as mesmas pessoas e fazer as mesmas coisas.
A conversa estrangeira, o idioma alheio, a música, o inusitado, a surpresa e a riqueza do plural me atordoavam deliciosamente e eu me sentia quase injustiçada por ter a obrigação da mediocridade, da adequação, da mesmice e do ajustamento.
Quando saltei do ônibus, um avião passou por cima da minha cabeça, deixando pra trás a cidade do Rio de Janeiro.
Dentro de mim, sensações, imagens, gostos, sons, velocidade, palpitação, ansiedade, angústia, desejo, calor. Dentre mulheres de saltos altos e homens de camisas de botão, eu não via ninguém em volta que se parecesse comigo: com tantos cabelos voando, com uma saia tão rodada, tão florida, com alças tão finas por cima da linha dos peitos, com olheiras tão verdadeiras. Com tanta raiva e tanto amor.
Eu me lembrei que nunca fui infeliz dentro de um avião. Que mesmo quando embarcava chorando, mesmo quando tinha que deixar alguém nove mil e tantos quilômetros atrás de mim, mesmo quando eu não sabia o que iria fazer quando saísse de dentro do avião, eu nunca me sentia perdida. Era sempre como se estivesse no lugar certo. Como se não houvesse nada melhor a fazer no mundo do que pegar aquele avião, pra onde quer que fosse. Como se não houvesse nada melhor do que despregar os pés do chão do lugar onde estivesse, observá-lo sob o ponto de vista da curva inclinada da manobra que segue a decolagem. Como se ao ficarem menores as pessoas e construções, ficasse também todo o resto. E sobrasse eu.
Inundada de música, de cor, de vida. Louca para pegar milhares de ônibus novos, falando todas as línguas possíveis.
Eu, solta no céu, forte e mágica como o avião.
05/03/2010 01:18 Sobre um fim de semana de Carnaval Saí do trabalho, mergulhei na praia, levei meu cabelo molhado pro cinema, dormi na cama da Elizabeth. Acordei com pizza e vinho branco. Dancei Manu Chao. Entrei pelo Pequeno mas balança e saí pelo Suvaco de Cristo. Tomei suco, tomei mate, tomei iogurte gelado, tomei banho. Eu quis ir pra praia, mas dormi. Eu fui pra praia e já não tinha mais sol, quase. Eu vi e ouvi o Manoel de Barros. Eu fui feliz e fui triste.
09feb10
Eu tinha que contar dois minutos do ponto de ônibus até o portão da minha casa. Aos dez segundos, eu desmaiei. Acordei no colo de um homem, em frente a um hospital. Me furaram os braços, me mediram a pressão sangüínea e não sei bem o que mais fizeram e imagino que aos poucos a cor vermelha deve ter voltado pra minha boca e pras minhas bochechas. O movimento em torno da minha figura diminuiu. Não sei quanto tempo ainda mais demorou até que eu tivesse força pra tirar o celular de dentro da bolsa e chamar minha mãe. Depois de atrapalhar a rotina de mais um, fui para casa com sentimento de coisa inanimada.
05/03/2010 00:52 Impressionando Lara My friend Rafael Barreto had the idea and I thought it could be interesting to make this kind of ode to the good things on Earth for once - and exercise my ability of speaking highly.
Impressing Lara
The way Foucault explained structures
The way Nietzsche explained life
The way my heart beats with a just enormous happiness every time I watch my body getting detached from the ground that gets smaller and smaller while an airplane takes off and takes me anywhere else
Children laughing, establishing relations, making questions and speaking their minds
Attentive, responsible, honest and caring mothers
Nelson Mandela’s entire trajectory and his huge and high sense of justice
Dita von Teese’s intelligence that is kind like a book entitled How to become a Goddess
Madeleine Peyroux’s voice, especially performing “Dance me to the end of love”, sweet, frantic and strong
The way love is presented so perfectly and poetically in this song
Villa-Lobos and the sound of his prelude No.1 that splits my mind from my body in a almost divine way
Segovia Andres playing guitar and helping Villa to make me hear poetry
The vision I have of the sun enlightening the planet and the feeling I have of life making sense for being just beautiful every time I hear to Bach 140
My little sister who tied her hair pink while it could still be cute and unmade it before it could be seen as stupid only
Eric who adopted all alone a 7 year old boy from Brazil and came back to France as a father
Sophie for all the many reasons that make of her someone so admirable: she is intelligent, and funny, and pretty, and brave, AND, lucky me, she is my friend
Jorge because his little childish eyes are always shining and making me feel good
Patricia, the most incredibly adorable and most of all greatly loyal and honest friend I had the grace to find in my way
People who are talented to make good surprises
All the people who face fear
All the people who face problems
All the people who make true compliments
All the people who make true statements despite of the games that most people insist to play as a way of living
All the people who have the ability to see good things inside the regular things
Emergências de hospital, oito remédios diferentes, fisioterapia, gelo no joelho, um acidente de trânsito, licença médica por uma semana, muitas brigas e um aniversário não muito celebrado.
Quem não escreve decentemente me irrita, quem só fala gíria e palavrão, se acha o máximo, é inseguro e tenta parecer forte, nunca ri de nada, não chega junto e quem observa o mundo com indiferença e apatia me irrita profundamente. Quem reclama o tempo todo, se faz de vítima, tenta me fazer de refém e quem acha que chantagem emocional é uma possibilidade me irrita. Quem não mostra sensibilidade, preocupação, carinho, cuidado, quem não considera os diversos aspectos de uma situação, quem só pensa em si próprio, quem pratica a filosofia do não estar nem aí pra ninguém me irrita. Quem deixa cabelo na pia, aperta a pasta de dentes no meio do tubo, deixa toalha molhada em cima da cama, joga lixo no chão e quem não usa a seta do carro me irrita muito.
Acima de tudo, me irrita gente que não dialoga e não acha importante resolver problemas.
"Eu era viúva havia cinco anos e estava tomando lanche com meus cinco filhos à noite, quando o telefone tocou. Era maio de 1982. No telefone, estava o meu irmão dom Paulo Evaristo Arns, na época o cardeal de São Paulo. Ele me contou que vinha de uma reunião da ONU. Eles pediram a dom Paulo que pensasse sobre como a Igreja poderia ajudar a expandir o uso do soro oral para as mães, com o intuito de evitar a desidratação, causada pela diarreia. E ele me aconselhou a pensar em como fazer isso. Foi, para mim, um momento de muita emoção. Na ocasião, eu era diretora da Saúde Materna Infantil do Estado do Paraná e o partido político no governo havia mudado. Apesar de eu não pertencer a nenhum partido político, eles me tiraram da direção da Secretaria da Saúde. Eu me sentia subutilizada quando dom Paulo me telefonou, parecia que Deus estava me abrindo uma grande porta: ensinar as mães a cuidar melhor de seus filhos. Depois que meus filhos foram dormir naquela noite, eu planejei a Pastoral da Criança inteira. Eu queria salvar vidas."
Zilda Arns, médica, sanitarista, vítima da tragédia no Haiti.
Médicos, exames, agulhas, seringas, pílulas, comprimidos, cápsulas.
Passos infantis do sofá pra cama.
Eu sou uma super-heroína com criptonita no cérebro. o que você pensa(0)
25/01/2010 21:20 Minhas visitas
Tinha meses que eu não entrava no blog. E eu não pensei que durante esse tempo alguém entrasse aqui. Mas entra. Eu descobri que cerca de duas dúzias de pessoas - se minha matemática rápida estiver mais ou menos razoável, enfim - passa pelo dramática todos os dias.
Eu fiquei curiosíssima tentando imaginar quem são vocês.
Gente que eu conheço? Pessoas que caíram aqui por acaso?
Não faço idéia.
Quatro mil metros Sou eu por fora e os meus quatro mil metros de profundidade por dentro.
Eu e meu chão que ninguém nunca alcança, que luz nenhuma nunca ilumina.
Chão em que não existe nada de comprovadamente vivo ou óbvio.
Coisa misteriosa e complicada, difícil de acessar, de entender, explicar.
Vem em lentas ondas a dúvida sobre as possibilidades de explorar
meu oceano abissal particular.
Eu fumo para tirar de mim esse vazio, você disse, soltando a baforada, escorado à porta da área de serviço. Você tinha o olhar pobre, parecia subitamente menor e mais fraco. A tua fumaça sacava do teu espírito mundano aquilo que você resolveu chamar de vazio e a tua fumaça fétida penetrava meu nariz adentro, enfiando em mim o vazio que era teu. Enquanto você se enchia de torpor, eu te via esvaziando tudo de realidade e de beleza. Eu assistia como outra, a mim própria, tristemente esvaziando de esperança. Você me esvaziava a admiração e o desejo. O teu cigarro feio se mostrava pra mim e dizia grosseiramente que eu não era ninguém que pudesse encher a tua vida, nem a tua casa, nem o teu vazio, nem mesmo a tua área de serviço. A tua camisa velha tinha a gola esgarçada. A tua mão gesticulava nervosamente numa pretensa atuação de independência e liberdade. Você cheirava mal. A casa cheirava feito a morte. Eu te olhava, quieta e sozinha, acabar com o cigarro e com a minha alegria.
Voltaram os relógios. Todas as pessoas juntas, em todas as casas, em todas as vilas, cidades. Todos juntos deram corda para trás e foi o tal anti-tempo.
Aí era janeiro, naquele sábado infernal, e eu era a criança com mais cabelos da maternidade. Esperei uma semana até que ele nascesse.
Eu quis dizer antes de todas as outras coisas que já estava tudo decidido e que, por isso, ele não precisava ter medo nem se preocupar. Eu quis dizer a ele que estava decidido o que eu queria que a gente fizesse. E propus a ele que a gente voltasse ali em 2022. Ele achou que eu era muito dramática.
E sugeriu 2017.
Eu tinha ficado dois anos sem falar.
Foi por medo que pela primeira vez me calei. Porque antes, toda vez em que abria a boca querendo dizer que amava, mentia e dizia que odiava.
E foi depois que fiquei desesperada. Antes, me sentia só culpada, e culpada eu me sentia quase sempre, e isso já não era assustador.
Tinha ficado dois anos sem dizer nenhuma palavra, me infligindo a dor de ser penalizada por não ter conseguido dizer as coisas certas. E tinha ficado deitada em minha cama, presa a uma imagem vertiginosa de um dia de julho em que perdi alguma coisa que nunca tinha sido minha.
Porque tinha sido pequena, e porque não havia nenhum crime previsto por lei para a minha vulgaridade, eu tinha puxado com os dentes e com minha pouca força os últimos milímetros que faltavam para que meus punhos não mais pudessem se soltar do nó entre eles e a cama.
Eu olhava pra frente sem fixar o olhar em coisa nenhuma. Eu tinha os olhos parados enquanto todo o resto se mexia. Eu sabia que ele existia em algum outro lugar da cidade. A gente fazia parte da mesma cidade. E enquanto eu me movia de um ponto a outro, todos os apartamentos tinham as luzes acesas e ele estivesse talvez jantando, talvez olhando cadernos, talvez dando comida à gata. Ele estivesse talvez sentindo saudades da ex-namorada. Eu quase sorria, e sentia os olhos ardendo da maneira de sempre, querendo conter o choro. Eu poucas vezes senti aquilo de maneira tão crua: era alegria, alegria vibrante. Era uma felicidade gigantesca, porque eu sabia que ele estava vivo, porque sabia que ele bebia coca-cola, usava óculos e, às vezes, sorria. Uma fanfarra doida se dava dentro de mim, porque o timbre e o tom da voz dele se faziam escutar dentro do meu cérebro mesmo que ele estivesse mudo. E eu ali, imóvel, impassível. O coração entusiasmado, só porque ele existia. Porque ele existia, pura e simplesmente, sem nada a mais nem a menos. Porque ele existia. E eu existia também. Ele de bermuda, eu de saia. Ele careca, eu descabelada. Nós dois respirávamos, nós dois acordávamos, dormíamos e vivíamos os mesmos dias do mesmo calendário cristão. E a leveza dessa alegria era igual ao peso da calma e constante dor que eu levava porque não era comigo que ele existia. Era a dor que me lembrava que também não era com ele que eu existia. E enfim, parece não existir nós dois.
Acabou o mês de julho. Acabaram as férias. Eu desisti de viajar e fiquei em casa. Deixei de marcar todos os médicos da lista que eu tinha preparado. Faltei alguns compromissos. Não consegui encontrar uma amiga no dia em que combinamos, e ela chegou quase duas horas depois. Não li de novo meu livrinho alemão. Distribuí cortadas para todas as pessoas que demonstraram interesse romântico por mim. Manchei meu vestido francês de seda. Tive pesadelos. Não entrei em nenhuma dieta. Nem voltei pra academia. Queimei a mão. Convivi com dores inacreditáveis nos joelhos. Eu tive os maiores hematomas nas pernas que consigo me lembrar de ter tido na vida.
Eu perdi o meu melhor amigo.
O fluminense está prestes a completar dois meses sem vencer ninguém.
As pessoas que andam por Laranjeiras te parecem um pouco tristes? o que você pensa(2)
24/07/2009 21:24
Sorrisos
- Você quer casar comigo?
Ouviram meus ouvidos. E nada de sininhos e violinos. Nada de taças meio cheias
nem meio vazias de álcool. Nem um traço de qualquer coisa que pudesse ser interpretada como romantismo.
Eram meus ouvidos e a frase cheia de significados e planetárias repercussões.
Meus ouvidos se escondendo dentro das orelhas ornadas com pequenos brincos.
Minha cabeça prendia minhas orelhas anestesiadas e era suportada pelo meu pescoço descoberto que não sabia se se deixava flexionado para um lado e desviava da pergunta, ou se, inclinando-se para o outro, entrava no mérito da questão apresentada.
Se eu queria casar com ele.
Eu tinha dezenas de respostas possíveis. Na verdade, o que eu tinha eram centenas de respostas. E elas pareciam todas impossíveis.
Eu tinha uma sensação de corrente elétrica que ia da língua ao cérebro, vindo e voltando, correndo, com respostas que só eram ouvidas da minha pele pra dentro.
Eram algumas vinte, trinta, duzentas respostas por milésimo de segundo, com força de trem bala, me atravessando o espírito. Meu pensamento ia na minha frente, a galope, enquanto eu tentava me organizar em mim mesma, para não deixar a pergunta sem resposta.
Eu queria dizer:
"Eu quero casar! Quero!
Imagino que deva ser fantástico viver rodeada de marido, plantas, filhinhos, cachorros e gatos.
Quero casar, sim, eu quero cozinhar pro meu marido,
quero ser acordada aos beijos,
quero me esperramar por cima dele no sofá num domingo à tarde pra ver o futebol na televisão,
quero que ele me abrace em Calais quando eu chegar com o lábio violeta
e tremendo de frio e de êxtase
depois de atravessar o Canal da Mancha a nado,
sim, eu quero!
Quero que a gente plante uma árvore no quintal
e veja ela crescer junto com o primeiro filho
e que a gente veja o primeiro filho ter ciúmes do segundo,
e que depois a gente ensine eles dois a jogar bola e falar francês
e leve eles pra montanha russa
e pra praia
e pro teatro
e pro cinema
e pra piscina
e que a gente passe um mês viajando pela Turquia
ensinando nossos filhos a fotografar com câmeras análogicas
e quero que a gente passe um mês acampando na Corsa
e quero que todo mundo lá em casa aprenda música.
Eu quero casar, quero, quero, é claro que eu quero!"
Eu não podia dizer nada disso, porque teria sido obrigada a acrescentar:
"Mas não exatamente com você."
Porque não era com ele que eu, que sou sem ambições, sem orgulhos, mas cheia de expectativas românticas, passional, idealista, exigente, sem arrogâncias, sem muita frescura, mas com uma fome imensa de lágrimas e de gargalhadas e uma fome desesperada de paixão e de verdade, queria viver.
Essa mulher, que era eu, não era a mesma que estava sentada ali ao lado dele
e com quem ele imaginou que pudesse se casar.
Não era com ele. Porque não servia qualquer um, porque havia peso na escolha.
Eu iria ter que explicar que eu queria muito me casar com ele, mas se eu tivesse sido construída de outra maneira que não a minha.
Que queria me casar com ele, mas se ele fosse um outro homem.
Um homem com idéias diferentes das dele, com forças e fraquezas diferentes das dele, com valores, sentimentos e arroubos diferentes dos dele.
Um homem que me definisse de outra maneira, que me desse outro papel, que me enxergasse mais bonita, mais interessante e mais inteligente.
Eu iria ter que fazer aquela pessoa entender a minha não exatamente óbvia explicação de que eu queria muito me casar com ele se nós fôssemos os dois diferentes, se tivéssemos tido outro passado, se estivéssemos vivendo outro presente, e se tivéssemos alguma real possibilidade, ainda que remota, de construir outro futuro.
-Você quer casar comigo? Responde.
Eu engatei na pressa uma série de músculos que me deixaram com cara de quem sorria.
Quem sorri, sorri. Sorrir é verbo intransitivo. Eu sorri e pronto.